Secta-feira, 6 de fevereiro de 2026, 22h.
Ação que se estrutura como um ciclo de construção, transferência e retirada da imagem drag, tendo o corpo como superfície de inscrição e apagamento. Sentada diante de uma mesa que remete a um camarim, iluminada por dois pontos de LED, realizo ao vivo todo o processo de maquiagem e montagem drag — incluindo peruca, figurino e acessórios. A ação acontece de forma contínua e visível, evidenciando o tempo da construção da persona e o caráter ritualístico do gesto.
Após concluir a maquiagem, visto um vestido confeccionado a partir de restos de figurinos da Escola de Samba Grande Rio (2023), incorporando materiais que carregam memória, excesso e espetáculo. Em seguida, me posiciono no centro do espaço e utilizo entre quinze e vinte lenços para pressionar o rosto, criando “prints” da maquiagem. Cada lenço absorve vestígios do rosto maquiado, funcionando como um sudário: uma superfície que registra presença, desgaste e transferência.
O gesto se repete até que a maquiagem deixe de produzir marcas visíveis nos tecidos, indicando o esgotamento da imagem. Nesse ponto, retorno à mesa e realizo o processo inverso: retiro o figurino, removo o restante da maquiagem e desmonto a personagem. A performance se encerra com o corpo novamente em estado neutro, após o desaparecimento da imagem drag. A obra investiga a construção da imagem enquanto prática corporal, social e política, tensionando permanência e efemeridade, espetáculo e resíduo. Em VESTÍGIOS, o que permanece não é a figura em si, mas as marcas deixadas — rastros de um corpo que se monta, se imprime e se desfaz diante do público.
Miranda Lebrão (Rio de Janeiro, 1989)
Artista da performance, atriz, diretora teatral e drag queen, com atuação internacional nas artes vivas. Sua pesquisa atravessa performance, teatro e ação ao vivo, tendo o corpo como campo de experimentação estética, política e poética. Em seu trabalho como drag queen, Miranda investiga a construção e a desmontagem de identidades, explorando gênero, artifício, presença e transformação como práticas radicais de criação. Suas performances operam entre o gesto preciso e a exposição intensa, criando situações de fricção que desafiam normas sociais e expandem os modos de ver, sentir e se relacionar. Como artista queer internacional, apresenta trabalhos em diferentes países e contextos culturais, desenvolvendo uma prática que afirma a performance como espaço de risco, invenção e encontro, onde o corpo se torna linguagem viva e dispositivo crítico. Miranda nasceu e vive na cidade do Rio de Janeiro.

